quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Decisões para Vidas

       Ao se tratar do tema aborto é sempre muito importante considerar que vidas estão em jogo e que por isso, cada caso deve ser estudado e analisado para que não hajam nem injustiças, nem riscos, seja para mãe ou para o feto. Mas afinal, a proibição do procedimento é justa para com as mulheres? Há casos em que é legal e ético a interrupção da gravidez? A resposta é sim.
      O primeiro caso de aborto que é permitido por lei é o de fetos anencefalos, condição em que o feto por algum motivo não foi gerado com cérebro, e que por isso não possui autonomia suficiente para as mais básicas das funções vitais, como por exemplo respirar. Por esse motivo uma lei autoriza a interrupção dessa gravidez, evitando desta forma o sofrimento desnecessário da gestante.
     Nos casos de estupro de crianças também é permitido legalmente o fim da gravidez. Nestes, vidas de mãe e feto são postas em risco e por isso a decisão pela sobrevivência da mãe é a mais correta por preservar uma vida em pleno desenvolvimento. Em casos de estupro de mulheres adultas a decisão é totalmente da mãe que deve considerar o trauma vivido e decidir até a vigésima semana, prazo dado pela justiça para que se aceite ou não o procedimento. 
      Todavia, os abortos por questões de mal planejamento continuam sendo proibidos no Brasil, diferente de alguns países em cujas legislações já se regulamentam estes e outros casos. A proibição brasileira tem gerado discussão entre alguns setores da sociedade que apresentam o forte argumento do direito a vida e da falta de defesa do feto, fato que é rebatido pelos pró-aborto com os dados sobre milhares de mulheres mortas em clínicas clandestinas as quais poderiam ser salvas com o procedimento abortivo em condições adequadamente reguladas pelo Estado.
     Diante dos fatos apresentados, chega-se a conclusão obvia de que se avançou bastante sobre este tema em nosso país, mas que apesar disso, a liberação total ainda continua sendo inviável num país que instrui mal seus cidadãos, investindo pouco em campanhas de educação sexual e de planejamento familiar. Sabendo o que fazer, a sociedade estará mais preparada para decidir pela vida, direito garantido por lei para mães e filhos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Em Campo, Brasil versus "Braaasilll"

Entre o país oficial, com seus problemas e dilemas cotidianos, e o país do Carnaval e do futebol

29/06/2014 | 07h01
Deitado no divã, o Brasil não seria um, mas dois brasis.
Autora do livro O País da Bola, a psicanalista e escritora Betty Milan faz a distinção entre esses dois conhecidos que subsistem paralelamente para explicar o papel do futebol no imaginário nacional – e o controverso uso político do futebol ao longo da história:
O primeiro seria o Brasil, o país oficial, com seus problemas e dilemas cotidianos. O outro seria o "Braaasilll, que é o país do carnaval e do futebol e é sempre vitorioso".
– Claro que o Brasil procura capitalizar as vitórias do Braaasilll, mas este é profundamente independente – sustenta Betty, referendando a ideia de que a Copa não tem interferência significativa dos resultados eleitorais.
– Quando a Copa terminar, vamos ter a memória de um espetáculo único, mas vamos cair na real imediatamente, e o voto será em função disso. É importante deixar a Copa acontecer. A trégua durante os jogos faz parte do espírito da civilização, que é datada das Olimpíadas na Grécia – observa.
Para exemplificar essa relação de independência entre os dois brasis, ela cita um episódio ocorrido em 1927, quando, de cartola e casaca, o então presidente Washington Luís foi ao estádio do Vasco, na época o maior da América do Sul, para assistir ao confronto entre Rio e São Paulo.
"O jogo começa, mas não dura. É subitamente interrompido por causa de um pênalti contra a equipe de São Paulo, que ameaça abandonar o campo. O presidente Washington Luís envia seu chefe de gabinete exigir dos jogadores que continuem no jogo. Indignado, o capitão Feitiço responde que lá em cima, na tribuna de honra, mandava o Doutor, já embaixo o mando era do mulato Feitiço, que, aliás, tirou imediatamente o time de campo", descreve a autora em seu livro.
Na contramão da tese de que o futebol seria o ópio do povo, Betty acredita que o Brasil deveria aprender as lições do futebol, um lugar onde as leis são respeitadas.
– Através do futebol é possível ensinar a importância do limite, porque o jogo faz valer a regra. O Braasilll mostra que a lei é a mesma para todos e que o que conta é o mérito – elogia.
Do estádio às ruas
Reconhecendo a importância do futebol como construtor da identidade nacional, o professor Flávio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da USP, destaca que a articulação entre Copa e política teve como um de seus efeitos fazer chegar à boca do povo três conceitos antes restritos às ciências sociais: "megaevento", "legado da Copa" e "mobilidade urbana".
Outro sinal de articulação entre os estádios e as ruas, segundo Campos, é que os coros que embalaram as manifestações de rua imitavam a gestualidade e a vocalidade das arquibancadas.
– Quando os manifestantes gritavam: "Pula, sai do chão, contra o aumento do busão", era uma paródia aos cânticos dos estádios: "Pula, sai do chão, faz ferver o caldeirão". Assim como "O povo acordou" é uma paródia de "O campeão voltou" – compara.
Mesmo em tempos de censura, o futebol também foi usado como espaço de resistência. Curadora da exposição Política F.C. – O futebol na ditadura, a jornalista Vanessa Gonçalves lembra que, assim como os governantes usavam o futebol para tentar aumentar seu prestígio, houve casos no sentido inverso.
– É um discurso raso dizer que é alienante, o futebol é um espaço de mudança para muitas coisas. A torcida do Corinthians fez campanha pela anistia em 1979 e há vários casos de personagens do esporte que lutaram contra a ditadura, como o jogador Nando, irmão de Zico, que foi preso por ter participado do plano de alfabetização nacional e anistiado em 2011. Negar a Seleção é querer tirar uma parte da nossa cultura – sustenta.
Ao pesquisar a criação do campeonato brasileiro, uma obra dos militares, o professor de História do Clio Internacional Daniel de Araujo dos Santos também observou uma via de mão dupla.
– A ditadura usou o futebol, mas o futebol também usou a ditadura – conclui Santos.
Fonte: ZH Notícias (http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/06/em-campo-brasil-versus-braaasilll-4538559.html)

Como a Copa Afeta as Urnas

Apesar do uso político do futebol, análise dos resultados desautoriza a versão de que uma vitória da Seleção Brasileira sempre dá votos para quem está no poder

29/06/2014 | 07h01
Como a Copa afeta as urnas Ver Descrição/Ver Descrição




















Em 1994, o então presidente Itamar Franco recepcionou os atletas vitoriosos em BrasíliaFoto: Ver Descrição / Ver Descrição
Da marchinha "Pra frente Brasil", usada para inflamar o ânimo nacional durante a ditadura militar, aos protestos que sacudiram os preparativos para a Copa do Mundo deste ano, a política historicamente entra em campo com a Seleção Brasileira.
Mas até que ponto os resultados desta Copa disputada em solo tupiniquim, com duelos contra e a favor do torneio nas redes sociais, xingamentos à presidente Dilma Rousseff no jogo de estreia – e, ao mesmo tempo, coros de "muito orgulho", "muito amor" (e muito hino à capela) dentro dos estádios – têm poder para interferir nas eleições?
A despeito da crença disseminada de que a vitória da Seleção traria benefícios a quem está no poder, uma análise histórica da relação entre o desempenho nos gramados e nas urnas desautoriza esta versão. Por mais que governantes de diferentes matizes ideológicos tentem se aproveitar da popularidade do esporte, o contexto político da lendária pátria de chuteiras tem se revelado mais independente do que parece, como indica a reeleição de Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno em 1998, quando o Brasil perdeu a final da Copa para a França, ou a vitória da oposição meses depois do pentacampeonato, em 2002, com a chegada de Lula ao poder.
Mesmo com o cenário singular de 2014, acirrado pela insatisfação popular com os gastos do Mundial sediado no Brasil, a influência do resultado do torneio na eleição é considerada limitada pela maioria dos especialistas ouvidos por ZH, como o sociólogo Ronaldo George Helal, coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Para ele, as possíveis consequências no pleito terão mais a ver com a avaliação final da organização da Copa do que propriamente com a quantidade de gols do Neymar.
– Se houver algum fiasco na Copa, a oposição pode usar isso, ou o governo pode se apropriar de uma boa organização. Todo mundo vai querer tirar uma casquinha, mas o Brasil ganhar ou perder não decide uma eleição. O uso político do futebol é antigo, a questão é a eficácia desse uso. Nos anos 70, o regime militar usou muito a imagem da Seleção para legitimar o regime, mas cabe a pergunta: se o Brasil tivesse perdido a Copa de 70, teria sido diferente? Acredito que não. Essa correlação direta nunca existiu – avalia Helal.
Maioria silenciosa
Como nas primeiras duas semanas de Copa a teoria do caos não se confirmou, o cenário também mudou. Depois de assombrado por protestos nas ruas e desacreditado pela famosa hashtag #naovaitercopa nas redes sociais, o torneio vem ocorrendo até agora sem maiores sobressaltos. Com direito, inclusive, a elogios da mídia estrangeira.
– Os brasileiros sempre foram muito preocupados em organizar um evento impecável, mostrar que o Brasil tem condições. Mas essa maioria não se percebia como maioria. Era uma maioria silenciosa, tinha vergonha de colocar bandeira na janela, porque uma minoria conseguiu disseminar um discurso contra o Mundial e os gastos. Quando começou a dar tudo certo na Copa, as pessoas começaram a perder a vergonha. Se o Brasil ganhar, pode melhorar a autoestima do país, mas não é isso que decide a eleição. Se pode amar muito o país e ser contra o governo – completa Helal.
Na avaliação do professor de história do Clio Internacional Daniel de Araujo dos Santos, o futebol continua sendo alvo constante de disputa fora das quatro linhas, e sua relação com a política é tão intensa como na época da ditadura. O que mudou foi a forma como esse elemento da identidade nacional é usado pelo poder.
– Lula e o PT queriam mostrar um Brasil forte e protagonista ao sediar a Copa, enquanto, nos anos 70, Médici queria mostrar que a organização militar gerava vitórias na economia e nos esportes. Hoje o cenário é outro, mas FH recebeu a Seleção pentacampeã como Médici recebeu os campeões do tri. E, naquele tempo, não se poderia ir ao Maracanã e xingar o Médici. O governo continua usando a Copa, mas isso agora é desvinculado da Seleção. Se der tudo certo na organização, o governo ganha. Se der errado, a oposição ganha. Os rumos do evento vão interferir na eleição, não o resultado em campo – analisa.
Ainda assim, num contexto político de insatisfação, cresce o dilema dos torcedores entre torcer ou não pela Seleção, como observa a jornalista Vanessa Gonçalves. Uma das curadoras da exposição Política F.C. – O Futebol na Ditadura, aberta à visitação no Museu da Resistência em São Paulo, ela avalia que, embora vivamos hoje em uma democracia, a situação de dubiedade de sentimentos, provocada pelo conflito entre a paixão pelo futebol e a insatisfação política, encontra paralelo com o período do regime militar.
Torcer e resistir
Ao entrevistar ex-presos políticos exilados fora do país, para um documentário que integra a exposição, Vanessa descobriu algo peculiar: para muitos deles, torcer pela Seleção era uma espécie de ato de resistência. Seria uma forma de mostrar que não deixariam a ditadura arrancar sua paixão pelo futebol.
– Conversei com ex-presos políticos que chegaram no exílio na Argélia um dia antes da final da Copa de 1970. Eles contaram que um quinto dos 40 presos começou torcendo contra a Seleção, mas à medida que o Brasil ia ganhando, todos torceram a favor. Alguns diziam que torciam pela Seleção, não pelo Médici. Hoje, os protestos são contra gastos da Copa, e volta essa dubiedade. Mas foi um pretexto. Se não tivesse Copa, as manifestações iriam acontecer do mesmo jeito – avalia.
Já o professor de História Flávio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da USP, acredita que, mesmo antes de acabar, a Copa já interferiu nas eleições. Um dos sinais seria o receio sem precedentes dos governistas de comparecerem aos estádios, temendo vaias e xingamentos.
– Nunca vi uma articulação tão intensa entre futebol e política. Na padaria ao lado de casa, no táxi, todo mundo está discutindo política – impressiona-se.
Pela primeira vez, segundo Campos, a nação se divide em duas torcidas: uma a favor da Seleção e outra contra a Copa, que é apelidada por ele de "rubro-negra", por unir o preto dos Black Blocs e o vermelho dos movimentos de esquerda. Reproduzindo a lógica da rivalidade entre os clubes, as duas "torcidas" se retroalimentariam a partir de ganhos e perdas de cada uma.
A despeito da artilharia disparada contra o Planalto pelos manifestantes, o professor ressalta que considera a estratégia equivocada, por entender que a responsabilidade pelos problemas sociais deveria ser repartida com Estados e municípios. E também responsabiliza o setor privado, que teria se acostumado a atrasar a execução de obras públicas para receber aditivos contratuais.
– Vivemos uma plenitude democrática que permite a expressão dos conflitos do país, mas temos dificuldade em lidar com o conflito. Achamos que conflito é sempre o fim do mundo. O principal legado da Copa é o enfrentamento do Brasil diante do espelho – reflete.
O efeito na aprovação dos governos
Pesquisa realizada pelo banco suíço UBS para avaliar macroeconomia e estratégia de investimentos, concluiu que não há relação direta entre o resultado em campo na Copa do Mundo e a avaliação de governantes no Brasil. Quando o Brasil foi derrotado pela França, na final da Copa do Mundo de 1998, por exemplo, a avaliação do governo brasileiro cresceu 7%, enquanto, em 2002, quando o Brasil ganhou o penta, a aprovação caiu 2%. Confira a tabela:
1994: campeão
Mudanças no Índice de aprovação no governo antes e depois do torneio: +21 ponto percentual (aumento de 16% para 37%)**
1998: vice-campeão
Mudanças no Índice de aprovação no governo antes e depois do torneio*: +7 pontos percentuais (cresceu de 31% para 38%)
2002: campeão
Mudanças no Índice de aprovação no governo antes e depois do torneio*: -2 pontos percentuais (de 27% para 25%)
2006: perdeu nas quartas
Mudanças no Índice de aprovação no governo antes e depois do torneio*: -1 ponto percentual (de 39% para 38%)
2010: perdeu nas quartas
Mudanças no Índice de aprovação no governo antes e depois do torneio*: +1 ponto percentual (de 76% para 77%)
*Entre maio e junho
**A comparação de 1994 foi feita entre abril e agosto
Impacto nas urnas
Com base em estudos internacionais, o relatório afirma que a Copa poderia influir se ocorresse até duas semanas antes das eleições. E, mesmo assim, seria um efeito restrito: o governo poderia receber de um a dois pontos percentuais a mais em votos nas eleições.
Como a Copa deste ano acabará quase três meses antes do primeiro turno das eleições, os autores concluem que não terá impacto significativo sobre o resultado.
O mundial na política
Só a partir de 1994 o ano da Copa do Mundo passou a coincidir com as eleições para a Presidência. Nestes 10 anos, nem sempre o título para o Brasil beneficiou as forças políticas de situação.
1958
Contando com Pelé, que despontava como prodígio aos 17 anos, o Brasil venceu pela primeira vez o torneio, na Suécia.
Nessa época, a disputa não coincidia com as eleições nacionais, nem havia reeleição. Vencedor em 1955, o presidente Juscelino Kubitschek recebe a Seleção e tira fotos. Apesar de sua popularidade, Juscelino não fez seu sucessor. O vencedor em 1960 foi o opositor Jânio Quadros.
1962
Com dribles de Garrincha, a Seleção garante o bicampeonato no Chile.
O país era governado desde 1961 por João Goulart, que assumiu depois da renúncia de Jânio Quadros. A vitória não impediu a instabilidade política, que culminaria com o golpe militar dois anos depois.
Ditadura militar
Em vigor entre 1964 e 1985, o regime militar atravessou cinco Copas (66,70, 74, 78 e 82). O Brasil foi tricampeão em 1970.
Sem eleições nacionais durante a ditadura, houve influência militar da comissão técnica da Seleção, e havia incentivo ao culto aos "canarinhos" como forma de promover e legitimar o regime, com propaganda alimentada por marchinhas e frases de efeito, como Pra Frente Brasil. O general Médici, que pouco dava entrevistas, teve imagem popularizada ao aparecer em fotos dentro do Maracanã e ao lado da delegação brasileira. Se a vitória de 1970 ajudou, o jejum de títulos nas Copas seguintes não fragilizou o regime.
1986
Com pênalti perdido por Zico, o Brasil foi derrotado pela França nas quartas de final. O torneio disputado no México foi vencido pela Argentina.
O país era presidido por José Sarney, que assumiu o mandato devido à morte de Tancredo Neves antes da posse.
1990
O Brasil caiu nas oitavas de final, na Itália.
Eleito em 1989, o presidente Fernando Collor de Mello cumpria seu primeiro ano de mandato. Dois anos depois, sofreria um impeachment e seria substituído por Itamar Franco.
1994
A Seleção ganhou o tetracampeonato nos Estados Unidos, com ajudinha do erro na cobrança de pênalti do italiano Roberto Baggio.
As eleições passaram a coincidir com a Copa. O candidato da situação, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que era ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, venceu. O principal motivo da vitória, no entanto é atribuído ao plano Real, que conteve uma inflação de 80% ao ano.
1998
Na França, o Brasil perdeu para os donos da casa na final, que ficou marcada por uma suposta convulsão de Ronaldo.
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se reelegeu no primeiro turno. A estabilidade da economia continuava a ser um trunfo político decisivo.
2002
Com artilharia de Ronaldo na Copa do Japão e da Coreia do Sul, o time do Brasil ergueu a taça do pentacampeonato.
Os governistas não conseguiram capitalizar a vitória no campo político. O PT chegou pela primeira vez ao poder ao vencer o tucano José Serra, que era candidato do presidente FHC.
2006
Brasil perdeu para a França, nas quartas de final, na Alemanha.
A situação venceu, com a reeleição do presidente Lula (PT). Nem as denúncias do mensalão abalaram a popularidade de Lula, ancorado em políticas sociais como o Bolsa Família.
2010
Brasil foi eliminado pela Holanda nas quartas de final, na África do Sul.
A situação venceu. Lula conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. De perfil técnico, Dilma chegou a ser comparada a "um poste" pelos opositores antes da eleição, mas o carisma de Lula e seus programas sociais garantiram sua eleição.
2014
Apesar do tão falado #naovaitercopa, o torneio é realizado no Brasil – e nas primeiras duas semanas ocorre sem maiores problemas.
A propaganda eleitoral começa no dia 6 de julho. Um ano após os protestos que sacudiram o país, o ambiente político é considerado mais tenso e imprevisível.
Fonte: ZH Notícias (http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/06/como-a-copa-afeta-as-urnas-4538540.html)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Um Brasil para os Brasileiros

Max H. Rocha
Não sei se o leitor tem a mesma impressão/sensação que eu, mas passo atualmente por um período de muito pessimismo e desânimo com relação a este nosso grande o promissor país que já fora até chamado de “País do Futuro”, principalmente por conta de suas grandes riquezas naturais. Contudo, como diria Rubem Alves, não basta ser dono de uma loja de tintas para ser um grande pintor.
Voltando ao meu pessimismo, não sei bem quando começou, mas sei muito bem o porquê desse início: política. É incrível como uma palavra que um dia fora uma das maiores esperanças das sociedades pode se tornar aqui no Brasil num rélis sinônimo de corrupção, roubo, desonestidade e falta de ética. E é tal o descrédito que não existe uma só criança que sonhe ser um deputado, senador ou mesmo presidente deste nosso país, diferente do que acontece em muitos filmes americanos nos quais as crianças são categóricas em almejar postos elevados das política do seu país.
Enquanto isso, nossas crianças desejam ser grandes jogadores, cantores, artistas de mídias e afins, demonstrando sempre um desejo muito individualizado de sucesso. Nosso patriotismo só se manisfesta em jogos de futebol ou grandes eventos esportivos, o que apenas revela um desejo de diversão irresponsável e autossatisfação egoísta, muito diferente do ufanismo norte-americano em todo tipo de evento onde tremule o estandarte yankee.
O que nos faz tão diferentes é basicamente esta dicotomia: individualidade versus coletividade. Se existisse um “DNA” sociológico eu diria que essas duas características seriam os genes principais desses dois gigantes das Américas, grandes territorialmente e populacionalmente, ricos naturalmente, porém, irremediavelmente forjados em contextos, histórias e pensamentos tão diametralmente opostos que ainda hoje influenciam como raízes profundas as visões sobre política que esses dois povos têm.
Olhando a História estadunidense, não podemos deixar de ver a influência protestante na construção do caráter desse povo. Fugindo de uma Europa conturbada pela guerra entre católicos e protestantes, levas de cristãos reformados partem para a aventura de desbravar uma nova terra, uma terra prometida comparada à Canaã conquistada pelos Hebreus nos tempos bíblicos. Desta forma, o foco das caravanas de pioneiros era uma nação para um grupo especial de pessoas que precisavam muito do trabalho coletivo para sobreviver. A prova de fogo dessa nação foi a sangrenta Guerra da Secessão que acabou por decidir pelo modelo do norte do país, que mesmo não sendo o ideal, pelo menos não era escravista como o do sul, pavimentando desta forma o futuro desenvolvimentista e grandioso daquela nação. Pouco tempo depois, um país era pouco para eles, donos de um continente. Surgem os americanos.
O Brasil também era visto como um lugar especial, mas de outra forma. Ao lermos os escritos de Pero Vaz de Caminha sobre a nova terra percebemos nitidamente o deslumbre do português diante das belezas naturais pela primeira vez presenciadas. Contudo, os portugueses demoraram por decidir pela colonização, enfeitiçados pelas riquezas que vinham das Índias. Setenta anos após as primeiras expedições e depois de inúmeras invasões estrangeiras os lusos decidem “fatiar” as terras tupiniquins em enormes faixas de terra, criando um modelo de concentração de riquezas difícil de desfazer. É notável porém os três primeiros nomes do nosso ainda jovem país: Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, prevalecendo no final, Brasil, sendo que os dois primeiros nomes revelam o esforço da igreja católica em impor sua religião (ameaçada na Europa). No final, prevalece sobre a jovem possessão a imagem de lugar de enriquecimento fácil, onde tudo pode ser levado e em que nada precisa ficar. Os primeiros contrabandistas de madeira, desejosos de fortuna fácil e própria deram o nome da nossa nacionalidade: brasileiros.
Americanos e brasileiros, duas formas tão diferentes de ocupar grandes espaços do mundo. Duas formas formas tão diferentes de usar a política: estes usam-na para perpetuar seus próprios poderes, para enriquecer fácil, para deixar de herança aos seus descendentes ou aliados a continuação dessa lógica tão cruel quanto centenária. Aqueles, certamente não são perfeitos, mas sabem que trabalhando para o grupo, todos serão beneficiados. São pragmáticos ao investirem no bem estar público, evitando desta forma a revolução dos excluídos. Foram injustos com os Índios aos quais dizimaram (nós também...), têm uma política externa agressiva e intrusiva que os coloca no alvo do ódio de inúmeros grupos, mas sempre saem em prol dos que consideram seus.
Dizer que o modelo estadunidense é o melhor para o mundo seria no mínimo hipócrita. Porém, o que falar sobre o senso de nação que tem esse povo, sua capacidade de organização e trabalho coletivo de alta eficiência, suas datas comemorativas nacionais celebradas como seus próprios aniversários?

Tudo aqui descrito é muito superficial para ser conclusivo. Ainda assim, observações como estas nos fazem entender o quanto ainda estamos atrasados na busca pelo bem coletivo, por uma política realmente funcional, por uma nação que seja mais do que um “salve-se quem puder”, mais do que a perpetuação de capitanias hereditárias segregantes e de plantations de corpos de esportistas habilidosos. Quem sabe um dia possamos ser não como eles e sim como “um nós melhorados”, nós para nós mesmos, um Brasil para os brasileiros.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Professor brasileiro é um dos que mais trabalham, afirma relatório da OCDE

No Brasil, docente gasta 25 horas por semana só dando aulas, um porcentual 24% maior do que outros 30 países analisados






José Luis da Conceição/Divulgação SEE
Pesquisa foi feita com mais de 14 mil professores brasileiros; docentes usam apenas 67% 
do tempo da aula; o resto é "desperdiçado" com atividades administrativas e no controle 
da "bagunça"











Os professores brasileiros de escolas de ensino fundamental, gastam, em média, 25 horas por semana só com as aulas. O número é superior à média de aproximadamente 30 países, como a Finlândia, Coreia, Estados Unidos, México e Cingapura. Lá, os professores gastam, em média, 19 horas por semana ensinando em sala de aula, ou seja, um porcentual 24% menor. O  posição brasileira é inferior apenas à do Chile, onde os professores gastam quase 27 horas em aulas. 
O docente brasileiro, contudo, usa até 22% mais de tempo que a média dos demais países em outras atividades da profissão, como correção de "tarefas de casa", aconselhamento e orientação de alunos. Todos os dados são da mais recente Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) divulgada nesta quarta-feira (25) na França.
Junto com o Brasil, não foram apenas países ricos e integrantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) - coordenadora da pesquisa - que participaram do estudo. Outras nações emergentes e também países menos desenvolvidos fizeram parte da pesquisa. Polônia, Bulgária, Croácia, Malásia e Romênia fazem parte do conjunto de nações integrantes da edição 2013 da Talis.
Os dados foram obtidos junto a mais de 14 mil professores brasileiros e cerca de 1 mil diretores de 1070 escolas públicas e privadas de todos os estados do País. Os docentes e dirigentes responderam aos questionários da pesquisa, de forma sigilosa, entre os meses de setembro a novembro de 2012. Cada questionário tinha cerca de 40 perguntas.
Em âmbito nacional, o estudo foi coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Em 2007, o Brasil também participou da primeira rodada da pesquisa, a Talis 2008, que foi publicada no ano seguinte.
Objetivo
A pesquisa tem como principal objetivo analisar as condições de trabalho que as escolas oferecem para os professores e o ambiente de aprendizagem nas salas de aula.
De acordo com o Inep, "a comparação e análise de dados internacionais permite que os países participantes identifiquem desafios e aprendam a partir de políticas públicas adotadas fora de suas fronteiras".
Diferente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), que prioriza a avaliação dos alunos, do seu contexto e da escola, no Talis, o foco está mais centrado nos docentes. "O programa Talis é um programa de pesquisas que visa preencher lacunas de informação importantes para a comparação internacional dos sistemas de ensino", afirma estudo da Universidade Federal do Paraná liderado pela pesquisadora Rose Meri Trojan.

"Desperdício"

A pesquisa também quis saber do professor quanto tempo de aula é voltado, efetivamente, para a aprendizagem. E o número é pouco animador para o Brasil. Mesmo com uma carga de 25 horas de aulas por semana, mais de 30% do tempo desses encontros regulares é "desperdiçado" em tarefas de manutenção da ordem dentro da sala e em questões burocráticas, como o preenchimento de chamadas e outras atividades administrativas.
Só o tempo gasto para por "ordem na bagunça" dos estudantes representa 20% do tempo total da aula. Com serviços administrativos, são gastos 12%. De aula mesmo, ou seja, atividades de aprendizagem, o professor dispõe apenas de 67% do tempo. É a pior situação entre todos os países avaliados. Na média dos países pesquisados, quase 80% do tempo é voltado, exclusivamente, para a aprendizagem.





Reprodução/TV Univesp
Ocimar Alavarse, da USP, diz que é preciso mudar o foco do ensino para a aprendizagem





















"Precisamos otimizar mais o tempo em sala de aula. O Brasil ainda tem como foco o ensino, mas é preciso se voltar para a aprendizagem. Não podemos desperdiçar tanto tempo com outras questões", afirma Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo ele, um dos principais fatores de dispersão do aluno é a  própria defasagem que ele tem em termos de conhecimento por uma série de fatores, inclusive os socioeconômicos. "Os alunos que chegam no fundamental veem com baixa proficiência ou possuem uma diferença muito grande em relação aos demais estudantes. Isso é um dos fatores que faz com que ele não fique atento às aulas e o professor precise gastar mais tempo organizando a dispersão", fala Alavarse.
Deslocamento
Além de usar mais horas por semana ensinando, parte dos professores brasileiros ainda sofre com o desgaste em descolamentos. Isso porque, muitos deles trabalham em mais de um estabelecimento.





Thinkstock/Getty Images
Dupla jornada em escolas diferentes representa mais trabalho e causa estresse no professor






































"Ainda temos que enfrentar o desafio da reorganização do corpo de professores nas escolas públicas. O ideal era que ele estivesse vinculado a apenas uma escola. No entanto, é comum docentes, especialmente dos anos finais do ensino fundamental, ensinarem em mais de um estabelecimento, já que certas matérias que eles lecionam têm uma carga horária e número de turmas limitado", afirma Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
No Brasil, cerca de 40% dos mais de 2 milhões de professores da educação básica dão aulas em cinco ou mais turmas. E aproximadamente 20% deles ensinam em pelo menos dois estabelecimentos. Já em São Paulo, 26% dos professores dão aulas em duas escolas. Os dados são do Censo Escolar 2013 divulgado no início deste ano pelo MEC.
Perfil
Além dos dados sobre condições de trabalho e ambiente de aprendizagem, a pesquisa da OCDE também traçou o perfil do docente brasileiro. Confira:

domingo, 22 de junho de 2014

Aquilo?! A precisão no uso do que negamos saber.

                    Max H. Rocha
               “A língua portuguesa é a língua mais difícil do mundo”. Já ouvi isso tantas vezes que perdi a contas, e suspeito que ainda ouvirei tantas outras porque um dia alguém fez o favor de criar esta lenda urbana para justificar sua incompreensão diante da nossa “flor do Lácio”.
Em parte entendo essa visão e vejo sua origem na gramática e isto fica evidente quando abro as minhas e contemplo termos como “pronomes retos” (por que não “pronomes sujeitos”?), pronomes oblíquos (que tal “pronomes objetos”?), e outros muitos termos que de tão anacrônicos acabam por afastar o aluno de algo tão seu: a linguagem.
Por isso, vivo reforçando em sala de aula que nenhuma língua é difícil para seu falante nativo. Mesmo o chinês mandarim com seus cinquenta mil ideogramas pode ser falado e escrito por qualquer criança, desde que ela seja educada na China. Da mesma forma, qualquer criança que tem como língua materna o português brasileiro sabe usar recursos retóricos suficientes para “arrancar” dos pais o brinquedo desejado. Todos entendem isso muito bem(principalmente os pais!), mas o bloqueio continua.
A minha persistência em quebrar esse preconceito me levou uma vez durante minha aula (de improviso!) a abandonar o planejamento para embarcar em um pequeno “estudo de caso” que acabou se tornando parte do repertório didático das minhas aulas. É uma pequena narrativa fictícia com base em situações da minha adolescência, na qual a protagonista demonstra um incrível domínio da linguagem na comunicação dos seus sentimentos. Eis a história:
Um garoto chega para uma garota e diz estar interessado em “ficar” com a melhor amiga desta. A garota age de forma normal e vai dar o recado à amiga que ao receber a notícia demonstra sua total recusa, respondendo com um simples...
- Aquilo?!
Bem sabemos que o nosso sistema linguístico tem três séries de pronomes demonstrativos (masculinos, femininos e neutros), cada qual com três pronomes que indicam a localização do referente com relação ao enunciador (para citar apenas um dos usos dos demonstrativos). Essa posição do referente pode ser:
Perto de quem fala mais do que de quem ouve (este, esta, isto);
Perto de quem ouve mais do que de quem fala (esse, essa, isso);
Longe, tanto de quem fala como de quem ouve (aquele, aquela, aquilo).
No caso da nossa amiga fictícia, a escolha do neutro “aquilo” revela um manejo bastante hábil do português no seu comentário, pois ao falar dessa forma ela simplesmente se considera muito distante do seu pretendente, e ainda que o rapaz não é humano, uma vez que os neutros são usados para fazer referência a objetos. Um “xeque mate” pra lá de ácido!
A conclusão dessa pequena análise faz os alunos perceberem que mesmo em situações banais somos bem exatos ao transmitirmos nossa mensagem, mesmo sem saber o que é um pronome demonstrativo ou qualquer dos termos técnicos das gramáticas normativas. Por isso sempre digo em minhas aulas que a tarefa do professor de língua portuguesa é menos a de ensinar coisas e mais a de pensar e aprofundar conhecimentos que já temos.